Philippe Perrenoud: "Na escola, dar mais a quem tem menos"
Referência na Educação, suíço defende que gestores e professores mobilizem sua dedicação aos alunos com maior dificuldade
Philippe Perrenoud
É o caso de perguntar: quando um aluno fracassa, a culpa é dele próprio (que não estudou direito) ou da escola (que não ensinou bem)? Para Philippe Perrenoud, um dos mais respeitados pensadores contemporâneos da Educação, não há dúvida de que grande parte do problema encontra-se, sim, na instituição. Mais precisamente, na forma em que ela organiza sua atuação, oferecendo a todos os alunos o mesmo ensino, com a mesma metodologia, exercícios semelhantes e avaliações idênticas. "Tratamos as crianças como se elas fossem iguais, porém a diversidade de culturas, modos de vida e relações com o conhecimento é enorme." Na opinião do sociólogo suíço, professor da Universidade de Genebra, a tarefa de uma escola que não exclui ninguém é oferecer uma Pedagogia que ele batiza de diferenciada, que considere - e atenda - as necessidades de cada um, dedicando mais atenção e energia a quem precisa mais. É a chamada discriminação positiva. Durante o Congresso Internacional da Rede Católica de Ensino, em Brasília, ele recebeu a equipe de GESTÃO ESCOLAR para explicar como diretores e coordenadores podem trabalhar para que suas escolas não deixem ninguém para trás.
A constatação de que a escola amplia as desigualdades socioeconômicas entre os alunos foi feita há quase meio século. De lá para cá, a situação mudou de alguma maneira?
PHILIPPE PERRENOUD Não muito. A diferença é que antes havia uma separação entre as classes privilegiadas - que chegavam às etapas superiores de estudo - e todas as outras, que não conseguiam. A partir dos anos 1960, as classes médias obtiveram acesso à universidade, mas as camadas populares ainda não. As desigualdades se deslocaram de patamar, mas continuam existindo.
A escola básica tem responsabilidade por essa situação?Sim, na medida em que não consegue reduzir as desigualdades. Ela é eficaz apenas para uma parte dos alunos, menos para outra parcela e muito pouco para cerca de 20%. Esses abandonam os estudos ou aprendem quase nada. E de onde vêm esses 20%? São as crianças de classes populares, justamente as que mais precisam aprender, pois não têm recursos em seu local de origem. A escola deveria se concentrar nesses casos, em que ela é insubstituível. Não é o que observamos.
Por que os sistemas educacionais da maioria dos países não têm alcançado o objetivo de fazer com que todos aprendam?Porque a maioria trata os alunos como se eles fossem todos iguais. Sabemos que isso não é verdade. Na prática, o que ocorre é que, mesmo com boas condições de ensino, ninguém aprende no mesmo ritmo nem da mesma maneira. Igualdade de oportunidades não garante igualdade na aprendizagem.
Por que isso ocorre?A aprendizagem depende não apenas de como o professor ensina mas também do que crianças e jovens trazem em termos de origem sociocultural e, claro, de seu interesse e sua dedicação. Podemos pensar no exemplo de dois adolescentes de 15 anos que estudaram a vida inteira juntos. Imaginemos que um saiba ler e o outro não. Um terá aprendido muito do que foi ensinado e o outro não terá tirado proveito das propostas. Muita gente pode dizer que o fracasso escolar é culpa do aluno que não se esforçou. Discordo. Precisamos dar assistência maior aos que não têm vontade de aprender.
Fonte: http://revistaescola.abril.com.br/gestao-escolar/philippe-perrenoud-escola-dar-mais-quem-tem-menos-739260.shtml
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